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Bate papo com Chico Preto

‘É justo que os cidadãos sejam afetados e a classe política siga intacta?’

Único vereador de oposição na Câmara Municipal de Manaus (CMM), e defensor do fim do isolamento social total, o vereador Chico Preto (Democracia Cristã) conversou com o Portal e fez uma análise do atual momento vivido em Manaus e no país por conta da pandemia do coronavírus. Na avaliação do parlamentar, que apoia o presidente Jair Bolsonaro (Sem partido), o Ministério da Saúde demorou a orientar o uso da Hidroxicloroquina no tratamento do Covid-19 e acredita que os desdobramentos econômicos da crise podem ser mais letais do que o próprio vírus.

Chico Preto também falou sobre o polêmico projeto de sua autoria que visava reduzir o salário dos vereadores. Ele foi fortemente criticado pelos demais parlamentares que o chamaram de oportunista e querer fazer palanque político em meio à pandemia.

O senhor é favorável ao fim do isolamento social completo, a chamada quarentena horizontal?

Chico Preto – Sou. E sou não porque não me preocupo com a vida das pessoas, como alguns andam cretinamente falando por aí. Muito pelo contrário. É por me preocupar com as pessoas que acredito que o mais certo a fazer é a quarentena vertical, onde os grupos de risco são isolados e os demais continuam seus afazeres normalmente. É preciso, obviamente, tomar os cuidados necessários, usar máscaras, levar as mãos com sabão e álcool em gel. Parar totalmente pode ter desdobramentos desastrosos na economia, e uma crise econômica pode ser muito mais letal do que o coronavírus. Nesse momento é preciso ter cautela e frieza. O assunto está sendo tratado com muita passionalidade. Grandes estudiosos, como o Dr. John Ioannidis, que é infectologista e estatístico da universidade de Stanford (EUA), também defendem a quarentena vertical.

E a Hidroxicloroquina, o ministro Mandetta diz que não há comprovação de eficácia e pode ter efeitos colaterais. O que o senhor pensa disso?

CP – O coronavírus é algo novo no mundo e não há, ainda, uma unanimidade sobre como combate-lo. Eu sou favorável ao uso da Hidroxicloroquina no início dos sintomas porque há comprovações sim de sua eficácia, como o caso do plano de saúde Prevent Senior, em São Paulo, coordenado pela Dra. Nise Yamaguchi, e também em Nova York, que tem reduzido os casos de internação com o uso desse medicamento. Eu sinceramente acho que o Mandetta errou em não adotar esse protocolo há mais tempo. Muitas vidas poderiam ser poupadas. Sabe o que acho engraçado? Muitos que são contra o uso da Hidroxicloroquina são os mesmos que pedem a liberação do uso de drogas. Há muita hipocrisia e narrativa política em cima da pandemia.

Por falar em Mandetta, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Josué Neto, pediu a demissão do ministro. O senhor concorda?

CP – A demissão do ministro é de prerrogativa exclusiva do presidente. Se o Bolsonaro achar que deve tirar o Mandetta ele vai tirar. O que me chama atenção nesse caso é a incoerência no discurso do Josué. Quando o pedido de impeachment do governador Wilson Lima chegou à Aleam – pedido esse justamente por conta de uma gestão temerária na saúde – ele não deu andamento e arquivou o processo.

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Como o senhor avalia a gestão da pandemia em Manaus e no Amazonas?

CP – Precisa melhorar. Só se está contabilizando os doentes e recomendando que as pessoas se tranquem em casa. O cidadão que vai a uma unidade de saúde não é medicado corretamente porque não tem nem Hdroxicloroquina nem Tamiflu disponível. Não tem EPI para os profissionais. O prefeito Arthur está construindo um hospital de campanha, coisa que ultrapassa a competência dele. Ao invés disso, deveria dotar a saúde básica com condições de diagnosticar e medicar as pessoas para que não seja necessária a internação.

Então o senhor é contra esse hospital de campanha?

CP – É claro que um hospital de campanha é importante. O fato é que o Governo Federal já está intervindo nisso junto ao Governo do Estado. Como disse, a prefeitura deveria focar na saúde básica, de prevenção. Além disso, é preciso observar se, de fato, o mais prudente e assertivo é a construção de um hospital de campanha tendo hospitais já prontos na cidade em desuso.

O senhor é a favor de adiar as eleições?

CP – Acho que o momento é de total foco no combate ao coronavírus. Não é momento de falar de eleição. Isso fica para depois que vencermos essa luta.

O senhor foi bastante criticado por seus pares por apresentar um projeto que visava reduzir salários e auxílios durante a pandemia. Disseram que foi um ato eleitoreiro…

CP – Por já ter sido indicado pelo meu partido como pré-candidato a prefeito, tudo o que faço na Câmara sou acusado de fazer palanque. Mas eu sou vereador e no parlamento represento os anseios do povo. O projeto era simples: reduzir nos meses de abril e maio o salário, verba de gabinete e cota de atividade parlamentar em 50%. As pessoas que geram riqueza na nossa cidade – que são aqueles que pagam o salário dos vereadores – estão em aperto, muitos recebendo apenas o auxílio do Governo Federal porque estão impedidos de trabalhar. É justo que os cidadãos sejam afetados e a classe política siga intacta? Eu não acho. Infelizmente a mentalidade de muitos não os permitem ver o óbvio: que o dinheiro público é dinheiro do povo.

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